Estava mais do que curioso para saber o que se tinha passado durante a minha ausência, sabia já de antemão que a coisa tinha sido quente por terras frias a leste. Depois de finalmente ter ido ao WC, dei um beijo enorme a La Patti e aproveitei para lhe dar o presente dela, planeámos ir comer qualquer coisa e assim com calma digeria também a história que aí vinha.
Fomos ao McDonalds, La Patti contou-me que havia uma certa histeria com a minha chegada, toda gente me queria ir buscar à estação, La Patti era da opinião de que não nos queriam deixar a sós para eu não saber das coisas, naifes pensei eu se não era nesta ocasião seria noutra.
A história começa então no tal jantar que eu deveria ter ido e faltar em comparência em Paris, a French Girl telefonou a dizer se podiam ir uns amigos dela, o mentor disse-lhe que não porque era só para as pessoas que ele tinha convidado, então a fofa desligou o telefone e já não queria ir, depois voltou a ligar e disse que afinal queria ir e se a podiam ir buscar, a outra mentora lá fez o favor de a ir buscar uma vez que o anterior já tinha bebido Pálinka a mais. La Patti ainda não tinha chegado pois estava com os amigos, afinal, no dia a seguir completaria o seu vigésimo e terceiro aniversário, ao chegar já estavam bem atestados os outros, excepto Cannibal Queen que tem a mania que é paparazzi e fica a fazer filmes das pessoas bêbedas, quem estava com a cardina toda era Crampus, já tinha tentado violar La Patti, já tinha ido com ela fumar um cigarro e dito-lhe assim - o que achas do André? Sabes ele é diferente de mim! Eu gosto muito de vocês mais do que das raparigas - La Patti diz-me que nesse momento estava Cannibal Queen a ouvir a conversa (Acredito que não ficou muito contente mas ...(Porque existe sempre um mas)). De regresso, pobre La Patti, não sabia o que lhe esperava, tinha ido ela ao WC e a French Girl coloco-se frente a ela e as escadas não a deixando passar e inicia conversa, a dizer que queria ser amiga dela mas ao mesmo tempo a agarrar-lhe o braço como aquelas crianças embirrantes que quando querem demonstrar a sua chateação nos sacodem, La Patti não gostou e por isso a conversa teve fio à meada, mais uma vez eu vim à baila, que eu era o mau da fita e bla bla. Não contente com isso, decide fazer frente à Miss Dinamarca dentro do táxi, quase agredindo-a, a noite corria-lhes bem e foram para a Disco, ao que parece a French Girl não foi. Mais umas considerações a meu respeito e os naifes tentavam separar-me de La Patti.
O jantar caiu-me mal com tanta desgraça, sinceramente já não começo, eu já estou farto desta escola primária do ensino básico que se vive aqui, não compreendo esta atitude, quer dizer entendo, a inveja é uma coisa muito feia, só que eles não sabem que existe um antídoto maravilhoso para isso, resolve-se num instante, o amor pois a amizade que eu e La Patti nutrimos um pelo outro é uma coisa muito pura, bonita e intensa e que mesmo que me vá daqui, ela não vai cessar.
Saído do jantar o que consegui fazer para não me doer nada foi rir, e ri muito mesmo muito, da ignorância das pessoas, que não importa de onde elas venham, do condição social ou educacional, a ignorância e a maldade são sentimentos que atravessam na diagonal todos os níveis da sociedade mundial. Um EVS como a vida não são perfeitos, há sempre qualquer coisa que estraga a versão romântica dos nossos sonhos em tons da nossa cor favorita. Eu tenho a sorte de ter um projecto fantástico, de ter pessoas que reconhecem o meu valor, de acordar todos os dias com um sorriso na cara porque estou feliz, de conseguir dormir de noite descansado porque vivo uma vida de verdade, sem mentiras, vivo com a minha consciência tranquila, do que me arrependo ou no que errei só cresci com isso e tive sempre dignidade para pedir desculpas. Por tudo isso e por muito mais, não vai ser um bando de pessoas do Norte que me vai afectar, ainda mais quando as conheço à um par de dias que comparado com uma vida não é nada.
La Patti deixou-me no Uni-Hotel, respirei fundo, ainda fumei um cigarro com ela, podia partir a loiça toda naquele instante mas não estava para isso, estava mais benevolente deixando-os, portanto continuar com a brincadeira deles de fazerem de mim o seu novo alvo.
Disse olá a toda gente que cruzava no meu caminho para o quarto, comecei por desfazer as malas, separar o que era para lavar e não, pouco a pouco e a custo a responder às perguntas feitas por Crampus, as raparigas ouviram-me chegar mas não foram ao quarto, eu também não estava na disposição de lhes ir dizer nada, coisa que depois me mandaram em cara por que é que eu não tinha lá ido dizer que tinha chegado, francamente, era só o que faltava depois de ter feito check in no aeroporto de Paris ir fazer check in com miúdas de dezanove anos.
Cruzámo-nos na sala de chuto aquando eu fui para fumar um cigarro, sim, já não tinha vontade para as convidar a juntarem-se a fumar comigo, depois de saber que bastou ter saído daqui por um par de dias para tentarem colocarem-me no tapete não estava na disposição de esboçar um sorriso. Falaram-me na história ocultando uma data de detalhes que já sabia de antemão, contaram-me portanto o conto infantil, a versão autorizada, a bonitinha, onde eles eram heróis ou mártires.
O Gui ligou-me, tinha-me esquecido de lhe responder às mensagens, estava cansado, triste, só me apetecia dormir, soube com tristeza que tinha rebentado uma bomba em Paris, foi aí que percebi porque é que o meu vôo em budapeste foi recebido com militares de metralhadora na mão, pedi-lhe desculpa e ainda fiquei mais triste por pensar que estamos num mundo louco e infeliz e por estar no meio desta experiência que muitas vezes é difícil de superar.
A sexta-feira foi a reunião de preparação da performance dramática, foi também a festa do aniversário do centro, por isso estive o dia todo ocupado e muito cansado, quando cheguei ao quarto nem jantei, fui direito à cama depois de um banho para dormir. Eu e La Patti fizemos as reservas para a viagem a Dublin em Março, vai ser uma semana em cheio, também, fomos levar as raparigas à estação de comboio porque iam passar o fim de semana em Budapeste.
Restava eu e Crampus pelo Uni-Hotel no fim de semana, sem as raparigas que tinham ido para fazer compras em Budapeste, eu e ele decidimos dedicarmo-nos a ver todas as séries de Sexo e a Cidade. Eu também tinha decidido depois de uma conversa com ele, abrir o meu coração e perdoar. No primeiro dia deitámos a baixo duas garrafas de vinho e depois como último round meia garrafa de Pálinka e a ver o Sexo e a Cidade, durante todo o fim de semana. Foi muito bom o tempo que passámos juntos e de partilha de conversas e ideias, lembro-me quando ele me segurou a mão a contar-lhe uma história triste, de chorar no último episódio de Sexo e a Cidade e assim passou um fim de semana.
Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007
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